O TEU FILHO TAMBÉM MENTE?

Hoje é dia das mentiras.
E para usar a terminologia oposta, a verdade é que todos nós mentimos. 
Em média 200 mentiras por dia, para ser exata (de acordo com um estudo da Faculdade de Medicina da Pensilvânia).
A verdade também é que quando os nossos filhos mentem cai o Carmo e a Trindade.
 Há um ano falei com a Magda Gomes Dias  sobre este tema no Porto Canal. Espreita aqui.
Assim como os adultos, as crianças mentem por muitos motivos [defesa, estratégia, medo, fantasia,etc]. O tipo de mentira, a frequência da mesma e, sobretudo, a idade da criança devem ser tidos em conta. A idade parece-me o fator mais relevante neste processo e é por isso que decidi desconstruir a mentira por faixas etárias [sendo que, naturalmente,falamos de estimativas já que cada criança é um ser único]:

0 aos 3 anos - São vários os especialistas que defendem que até aos 3 anos não existe mentira propriamente dita. O que acontece é que as crianças faltam à verdade por falta de compreensão do que lhes foi perguntado. Por exemplo: "Já lavaste as mães?" "Lavei." "Não lavaste nada, estás a mentir". O seu filho não está a mentir. O tempo é muito abstrato para uma criança desta idade que, não tendo lavado as mãos naquele momento, já o terá feito noutras ocasiões. Dica: Ser claro, inteligível e evitar confusões. "Reparei que não lavaste as mãos como te pedi. Vai agora lavar as mãos por favor" é uma frase mais direta para a criança.

A maioria dos estudos que li falam da mentira por proteção/defesa a partir dos 4 a 5 anos. Ora eu sou mãe e sei que ela pode surgir BEM mais cedo. É típica sobretudo em casas com mais do que um filho. Por exemplo: "Quem fez isto?" "Foi o mano." "Lá estás tu a mentir!". Antes de mais, o que faz pouco sentido é a nossa pergunta. Não só porque provavelmente já sabemos a resposta, mas também porque estamos a criar oportunidades para os miúdos faltarem à verdade. Dica: Fale calmamente com o seu filho e peça que lhe diga a verdade. Quando ele o fizer, elogie o comportamento e não o puna pela asneira [ficará para um outro episódio, aqui valores mais altos se levantam].

3 aos 4 anos-  A fantasia é também muitas vezes confundida com a mentira pelos adultos e esse é um erro que pode comprometer a capacidade imaginativa dos nossos filhos. Se o seu filhote diz que acabou de ver a Heidi a saltar pela janela, em vez de reprimir, entre com ele nesse mundo. A realidade e a fantasia são uma só nestas idades.
À medida que a criança cresce a suposta mentira passa a ganhar contornos mais reais. Ou seja, o seu filho dirá coisas como "Hoje marquei 20 golos no futebol e até recebi uma medalha". Dica: Substitua o "estás a mentir" por "Tu marcaste mesmo 20 golos ou tu gostavas muito que isso tivesse acontecido?" É uma das melhores armas contra a mentira cá em casa. Uso-a frequentemente e não só consigo chamar o meu filho para a verdade, como ainda lhe roubo um sorriso cúmplice :)

4 aos 7 anos - A intenção da mentira e a consciência moral começam a ganhar dimensão. Os 4 anos marcam a entrada no real e é, por isso, expectável que os processos de construção da mentira ganhem contornos mais complexos. É por isso essencial ser um modelo de referência. Por exemplo: "Ui, filho...não comas esse chocolate que tem picante, é horrível". A criança provavelmente não vai resistir, vai provar e, mesmo que não verbalize, vai certamente pensar que os pais estão a mentir. Não só se sentirá defraudada, como vai legitimar a mentira precisamente porque está numa fase de exploração da consciência moral. 

7 aos 12 anos- A entrada na difícil vida escolar (uma dia falamos disto, está?) traz com ela, quase sempre a mentira para se libertarem de tarefas que lhes trazem ansiedade ou frustração. Os trabalhos de casa, a aula de ginástica ou o simples ato de colocar a mesa são motivos usuais para as crianças [e os adultos!!!] faltarem à verdade.
Dica: Trabalhar outras competências como a resiliência e auto-aceitação são um passo gigante para diminuir este tipo de mentira.

A entrada na adolescência - e a vontade avassaladora de se autonomizarem dos pais - aumenta o leque de motivos para mentir. Para todos eles há três regras de ouro:

1) SER O EXEMPLO. Parece fácil, mas não é. Dizer a verdade [ainda que adaptada à idade] aos nossos filhos é um exercício complexo e que nos obriga, enquanto família, a enfrentar muitas birras, frustrações e até sofrimento. Mas pensem bem: mentir a alguém que amamos tanto? Como nos sentimos quando nos mentem? É dessa forma que se sentem os nossos filhos. E não pensem que eles não topam as mentiras. Mais cedo ou mais tarde vão topar e quanto mais tarde maior será a desilusão.

2) NÃO DAR OPORTUNIDADE À MENTIRA. Nos conflitos entre os meus filhos aboli frases como "quem fez isto?" ou "quem começou a bater em quem?" São frases vazias que levam a respostas óbvias de medo e defesa. De manhã, também vou retirando perguntas como "Já lavaste os dentes?" [quando estou fartinha de saber que ainda não o fez] e opto por ir direta ao assunto "Reparei que ainda não lavaste os dentes. Vai lá agora por favor que já estamos em cima da hora". E quem fala de aspetos simples do dia-a-dia, fala também de assuntos maiores como a morte, o divórcio ou o terrorismo [temas que levarei até vocês um dia destes].

3) NÃO ROTULAR, ESCUTAR E PERDOAR. Sobretudo à noite, no ritual de ir para a cama, o meu filho de cinco faz-me algumas confissões. Mesmo que me confesse alguma mentira ou algum comportamento errado nunca me zango com ele. Obviamente que o convido a pensar no caminho correto. Mas sem grandes juízos de valores e, sobretudo, sem o etiquetar de "mentiroso", "aldabrão" ou algo do género.

A confiança que os nossos filhos depositam em nós é poderosíssima e será, certamente, uma grande aliada durante a adolescência.

Pensem nisso.









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