QUEM ÉS TU, MÃE?

Acordar. Tomar banho.
Abrir a porta à Kimba.
Acordar os miúdos (quando corre mal a Frederica aparece-me a meio do banho a choramingar e a pedir leite. Eu bem que a mando ir ter com o pai mas nada a tira dali. A não ser eu, enrolada na toalha.)
Voltar a fazer umas festinhas ao Vicente para acordar. Virou-se para o lado.
Aproveito e vou dar a comida à cadela. (Ups! Fez um xixi. Limpar o xixi).
A Frederica está a chorar. Colo. Vestir a Frederica.
O Vicente chamou-me. Foi fazer xixi.
Safado, meteu-se na minha cama com o pai.
Pedir ao Vicente que se vista. Pedir ao pai que invista (na saída do bem-bom da cama).


Preparar os leites. E o pão (com manteiga para ela, com compota para ele).
A Frederica não quer o copo cor-de-rosa. Acalmar a birra.
(Às vezes troco o copo. Às vezes compro a guerra. Eu sei que devemos ser coerentes... Mas é o relógio que manda nestas alturas).
Mandar o Vicente vestir-se, outra vez!!!
Preparar os lanches da escola.
Chamar o Vicente para a cozinha. E ajuda-lo a calçar as meias (é uma tarefa que ainda lhe custa!)
A Frederica entornou o leite. Molhou o cromo que o Vicente tinha na mesa.
Pegam-se.
[Pause]
Fazer novo leite, limpar a mesa e ajudar a resolver o conflito.
Pego num bocado de pão que sobrou dos miúdos. Boca a dentro.
Estão quase prontos.
Vou ao quarto acabar de me arranjar (uns brincos e uma escovadela rápida no cabelo é o mínimo.)
-Mãaaaaaaaaaaaaae!!!!
(Ou não, outra vez!)
- A Kimba pegou nas sapatilhas que estavam na entrada,
Ativar modo corredora de sprints: apanhar a sapatilha.
Ralhar com a cadela (oh, coitadinha! afinal é pequenina).
Lavar os dentes aos miúdos. Limpar-lhes as remelas dos olhos e o pingo do nariz.
Ai! Quase que me esquecia: dar a medicação à Frederica.
Está quase!!! Casacos, mochilas nas costas, sapatilhas e beijinho ao pai.
Vamos embora :)
- Vicenteeee, onde estás filho? Estamos atrasados!
- Mãe estou só a escolher um brinquedo para levar para escola.
[A Frederica já está descer as escadas. Ainda se vai estatelar no chão.]
-Vicente despacha-te!
- Já vou Mãe!
Lá vem, devagar, enquanto eu estou, literalmente, com um pé em casa e outro na rua.
Deixo a Frederica no infantário. Deixo o Vicente na escola.

Ligo ao André pelo caminho. Parece que já não o vejo há muito tempo.
Parece que acordei há muito tempo. Com sorte ainda tomamos um café rápido os dois.

Chego ao canal. Preparo os alinhamentos. Corrijo os oráculos.
Penso em soluções. Passo pelo departamento da Tânia, a minha produtora do Filhos&Cadilhos, trocamos ideias.
Vou para a maquilhagem (com a quantidade de máscara que ainda tenho nas pestanas ia jurar que já estou maquilhada.)
Escolho uma roupa. Tenho de ser rápida.
Ainda não tenho abertura para o programa regional que apresento diariamente.
Ouço coisas que não gosto na redação. Calo-me. Respiro fundo.
Volto a corrigir oráculos e a escrever pivos.
Ligo aos jornalistas.
Saio num tirinho: é dia dos miúdos almoçarem em casa. Saio do canal a correr - literalmente - e entro no carro. Vou buscar o Vicente à escola. Troco duas palavras com a educadora.
O caminho da escola para o carro - que está mesmo ali à porta- demora. Ele quer-me mostrar as joaninhas que encontrou no muro. E eu quero mostrar-lhe o meu amor. O Amor chama-se Tempo.
Pegamos na Titi. Ponha-na na cadeirinha enquanto cantamos o "Pastorinho".
Deixo-os em casa. Volto para o canal.
Reúno com os editores. Mudo o alinhamento.
Ligo aos jornalistas a saber das reportagens. Pressiono-os (o que eu não gosto de os pressionar).
Quando tenho tempo como alguma coisa. Ou em pé, no café ao lado, ou da marmita que trouxe de casa.
Vou de novo à maquilhagem. Retoco o batom.
Entro em direto.
Entrevisto uma média de cinco pessoas em quarenta minuto. Mudo o chip a cada segundo.
E a história continua assim frenética até à hora que me deito.

Ser mãe é uma mudança transformadora, avassaladora e profundamente compensadora.
Mas a verdade também é que, tantas vezes, nos esquecemos de nós. 
Esquecemos-nos de cuidar de nós. De olhar por nós. De saber de nós [quem somos agora?]

Durante anos julguei que o compromisso de ser mãe anulava tudo o resto.
Durante anos essa conversa do auto-cuidado entrava-me por um ouvido e saia-me por outro.
Julgava que podia tudo, conseguia tudo, abraçava tudo.

No último mês tenho estado doente - nada que não se resolva, felizmente - e este tempo em casa tenho-me feito pensar muito. Obrigou-me a parar. A (re)centrar-me.
Nunca imaginei dizer (pensar) isto desde que sou mãe mas aqui vai para todas vocês:
Primeiro eu. Primeiro as minhas necessidades. Primeiro eu.

NOTA - Acho que esta é uma reflexão muito interior e que depende apenas da vontade individual de cada uma de nós. Ainda assim, se precisarem de ajuda, aconselho-vos a conhecer os projetos das queridas Mia Oven e da Mariana Bacelar.



Comentários