KIT DE SOBREVIVÊNCIA A IRMÃOS

Os meus filhos pegam-se. E não é de vez em quando.
É todo os santo dia.
Posso até dizer que é a toda a santa hora.
E não se pegam de mansinho.
Pegam-se à séria: com empurrões, com palavras feias, com gritos e até com bonecos pelo ar.

Os teus filhos também se pegam.
Pegam, sim.
E provavelmente o cenário é idêntico.



Cá em casa, os conflitos entre o Vicente e a Frederica eram um dos maiores motivos de instabilidade familiar. Há poucas coisas que me tiram tanto do sério!
Tive, por isso, necessidade de procurar ajuda e ler mais sobre o assunto para ver se, de alguma maneira, podia minimizar os conflitos entre os meus filhos.
Entre as minhas leituras, posso-vos recomendar desde já o novo livro da minha querida amiga Magda Gomes Dias. Em "Pára de Chatear a tua irmã e deixa o teu irmão em paz!", a Magda consegue aliar a teoria à prática e dar luzes muito valiosas no que à gestão de conflitos diz respeito.
Por falar em prática... Vamos a isso? Deixo-vos cinco regras de ouro para usar no dia-a-dia:

1) DAR UM PONTAPÉ À COMPETIÇÃO: Acabou o "vamos ver quem é que come a sopa mais rápido" ou o "último a lavar os dentes é um ovo podre". A razão é simples? Se queremos que sejam cúmplices e cooperantes devemos ensiná-los a jogar na mesma equipa e não a serem adversários um do outro.

2) ADEUS COMPARAÇÕES: "A tua irmã é mais nova e já se vestiu toda sozinha e tu nem a t-shirt vestiste..." é uma das frases que pode ser mais dura para uma criança. Os irmãos são pessoas diferentes, têm ritmos diferentes, sentem de forma diferente e, como tal, devem ser tratados como seres diferentes. É tentador, eu bem sei, comparar mas estamos, muitas vezes, a abalar a auto-estima dos nossos filhos e a promover os conflitos entre irmãos.

3) TIME OUT DO IRMÃO: Às vezes, por ser mais prático, obrigamos os irmãos a fazer tudo juntos: atividades, ir para o banho juntos, deitar à mesma hora, ouvir a mesma história, etc.
Só que, muitas vezes, o que os irmãos precisam é de estar um sem o outro (e talvez assim apreciar mais os momentos juntos).
Esta foi a regra que mais resultou cá em casa: fazer com que passem ligeiramente menos tempo juntos a realizar as mesmas tarefas.
Por exemplo: À hora de deitar, o Vicente fica no quarto dele a ver um livro enquanto eu preparo a Frederica para dormir e lhe conto uma história. Depois, vou ter com ele e leio-lhe umas páginas do livro que está a consultar.
É verdade que isso me faz perder mais tempo e que o Vicente acaba por adormecer ligeiramente mais tarde. Mas a paz desse momento não tem preço. E não tem também preço o facto de, através desse momento, cada um dos nossos filhos se sentir especial e amado.

4) PARTILHA QB: Partilhar sim, mas nem tudo. Na verdade eu não gostava de partilhar todas as minhas coisas. E os nossos filhos também não.
Como definir então o que é teu, meu e nosso? Simples, com regras. Cá em casa tudo o que está no quarto de cada um é exclusivo dessa pessoa e ninguém pode pegar sem autorização. Tudo o resto é de todos e todos podem utilizar.
Esta regra tem um duplo benefício: por um lado obriga-os a organizarem-se (se gostam muito de uma coisa tem de a proteger no seu quarto) e, por outro lado, faz com que respeitem o espaço do outro.

5) MENOS INTERVENÇÃO: É um grande segredo. Devemos envolver-nos o menos possível nos conflitos entre os nossos filhos. Aliás, devemos envolver-nos o menos possível na interação que os nossos filhos estabelecem entre si. É esse o grande objetivo a longo prazo: que sejam capazes de ter uma relação saudável sem a nossa intervenção.
Como o fazer? Dando-lhes as ferramentas para comunicarem e se respeitarem, mostrando como se faz, repetindo o processo até à exaustão.
Demora? Demora muito. Tem avanços e recuos. Mas é possível.


Domingo os meus filhos passaram umas boas duas horas metidos no quarto do Vicente a brincar.
Não ouvi ninguém chorar, ninguém me veio fazer queixinhas, nem se agrediram.
Só lá ia, de vez em quando, perguntar se estava tudo bem. Lá estavam a montar uma cabana e a mudar fraldas a bonecos.
Foi uma tarde como não me lembro.









Comentários

  1. A grande dificuldade está do nosso lado, o lado dos Pais... Pois as comparações teimam em sair dos nossos lábios, como setas.... A aprendizagem é uma constante, a nossa... É aí de quem pense que não...

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